quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Quando começa um romance #1

Quando começa um romance #1
Ela mora numa ruazinha estreita. Fica em algum lugar de Porto Alegre. Toma café preto, numa xícara colorida todos os dias, às sete da manhã. Escora seus braços na sacada de seu apartamento, assim pode observar o movimento na pequena rua. Fica alguns minutos reparando em tudo o que há por lá: as portas de entrada para outros apartamentos, gastas pelo tempo, pinturas arranhadas e descascadas, os vasos com plantas expostos no chão, vários tipos, mas não são alegres, são de barro e alguns de plástico, a rua toda parece ser da mesma cor: fria e sem vida.
Exatamente às sete e dez, todos os dias, ela vê um rapaz passar por ali. Passos apressados, jornal na mão, às vezes um livro. Cabelos curtos, escuros, não é muito alto, nem baixo, pele branca, mas não muito, usa sempre calça jeans, camisa e sapato, não social, aqueles mais casuais. Acha-o muito bonito, todos os dias. Passa decorando o chão, as pedras cinzas, os defeitos, as formas, desviando das poças d'água, parece sempre procurando por algo, olhando atentamente para o chão. Por isso nunca a notou lá, admirando-o. Parece até sentir o cheiro dele, imaginando o toque das mãos, o roçar da barba em sua pele, o beijo quente e macio. Deve ser delicioso.
Ela fica ali, todos os dias, segurando a xícara com as duas mãos, sonhando com ele e sentindo-se reconfortada com o calor do café. Então, um desses dias em que ela o vê passar, como sempre, sente o coração acelerar, aquele friozinho na boca do estômago. Em segundos ela imagina sua vida sendo envolvida na dele, perdida em suas visões, não percebe quando a ponta esquerda da grade da sacada escapa da parede. Ela dá um impulso para frente, sua xícara cai, quebra logo atrás do rapaz. Ele ouve o barulho, volta-se, olha para a xícara quebrada, olha para cima procurando o motivo, encontra Anabelle equilibrando o corpo e jogando-se para trás, assustado ele corre na intenção de se colocar abaixo da sacada, mas ela consegue se segurar no limiar da porta, então ele ouve:
Moça! Tudo bem aí? Ela não responde, apenas observa-o.

Ele, parado, aguarda a resposta.
Moça, tudo bem aí?
Sim, tudo bem, obrigada.
Precisa de alguma ajuda?
Ela fica muda novamente, o pensamento confuso.
Sim, acho que sim, mas só para concertar a sacada, eu estou bem, não foi nada.
Certo, qual seu nome?
Anabelle.
Oi Anabelle, sou William, estou indo para o trabalho e não posso te ajudar agora, mas tudo bem pra você se eu passar na volta?
Sim, acho que tudo bem.
Preciso ir agora, certo? Passo por volta das cinco.
Ah, sim, claro, obrigada.
Mantenha-se viva até lá, combinado?
Anabelle sorri.
Claro, manter-se viva, sim, lógico. Até logo.

Anabelle desce, recolhe o que sobrou da xícara, envolve os cacos com folhas de jornal, joga na lixeira que fica abaixo da sua sacada. Encosta-se na parede ao lado, sente-se meio boba, sem entender o que aconteceu. 
Repassa a cena diversas vezes no pensamento. Fica só repetindo a cena em que ele oferece ajuda: precisa de alguma ajuda? Precisa de alguma ajuda?
Sim, ela precisa de ajuda, não só com a sacada, mas com a própria vida.
Repete baixinho, num sussurro: William, William, William.


http://gambiarraliteraria.blogspot.com.br/2010/08/exercicio-de-criacao-1.html


Modificado 16/12/16

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